2 de dezembro de 2012

Sidequest #42 - O Naturalismo Gygaxiano



Existe um conceito até então desconhecido por mim chamado de "Naturalismo Gygaxiano". A primeira vez que ouvi falar dele foi no The Piazza, onde as pessoas comentavam sobre muitas aventuras que traziam esse conceito. Conversando com um colega meu do Blackmoor Mystara, acabei entendo de que se tratava.



O conceito de Naturalismo Gygaxiano normalmente se refere a uma tendência presente nas regras do 0D&D, e atingindo seu ápice no AD&D, onde os monstros eram descritos simplesmente como adversários dos jogadores/obstáculos, onde eram mostradas apenas as suas estatísticas de combate sem que os autores se importassem com o papel que aqueles monstros exerciam dentro do mundo de jogo.

Este naturalismo pode assumir diversas formas. Por exemplo, nos guias de mestre do 0D&D, é comum encontrar algo do tipo "Para cada X monstros do tipo Y, existe uma chance do monstro Z também estar presente". Já no AD&D, esse tipo de coisa se expande a um ponto onde o Livro dos Monstros diz ao mestre quantas fêmeas e crianças podem ser encontradas no covil de um tipo de monstro, descrevendo também um monte de  habilidades e poderes que não servem especificamente para combate, como por exemplo, a habilidade de detectar alinhamento dos Pixies.

A intenção por trás do Naturalismo Gygaxiano é mostrar como funcionaria o mundo "real" do rpg, que basicamente, é mostrar um mundo que funciona por outros motivos além do mundo de jogo: descrevendo monstros que vivem por si mesmos, e correm atrás de seus objetivos, fazendo outras coisas até que encontram os jogadores no meio da história. E isso é feito através da descrição de regras e mecânicas de jogo, e não da descrição de cenários e situações.

A presença do Naturalismo Gygaxiano é o que dá um pouco mais de realismo ao D&D. Não que o sistema e o cenário sejam realistas, mas sim que ele é um pouco mais coeso, seguindo o mínimo de "leis naturais". Inclusive, este é o único motivo pelo qual o Livro dos Monstros, depois de tantos anos, ainda apresenta estatísticas para Esquilos, Cachorros, Corujas e outros animais normais.

O resultado disso é que a fantasia Gygaxiana é um tipo de simulação de fantasia medieval, com regras de funcionamento estabelecidas. A desvantagem é que este tipo de simulação acaba se tornando específico demais, carregando um monte de suposições e expectativas que nem todo mundo possui. É possível que muitos jogadores de 0D&D, por exemplo, não curtam a maneira que os orcs "naturalistas" são descritos, preferindo que eles saiam de uma grande bola de pudim negro presente em cada dungeon, um ambiente vivo e com vontade própria.

O Naturalismo evoluiu até tal ponto, que na terceira edição do D&D ele atingiu o seu auge, onde haviam estatísticas para 99% das coisas que os jogadores pudessem interagir, incluindo até valores de experiência para um guerreiro que quebra uma porta, por exemplo.

Em defesa do Naturalismo Gygaxiano, tenho a dizer que quanto mais descrições e detalhes, mais assunto existe para ser conversado, debatido e criado, consequentemente, gerando mais aventuras, que são o principal ponto de todo o jogo de D&D. É interessante dizer que nem todos os detalhes descritos nas edições anteriores eram iguais, ao contrário de quando o D&D atingiu seu ápice na terceira edição, onde cada coisinha tinha um bloco de estatísticas. É importante dizer também que é a função do Mestre escolher quais detalhes são relevantes para serem inclusos nas aventuras.

Enfim, sei que esse é um papo meio de bêbado, mas eu resolvi explicar este conceito agora porque pretendo falar mais pra frente de algumas aventuras que se utilizam dele. Espero que eu tenha sido claro o suficiente =)

No mais, é isso aí!

O blog não pode parar!

Obrigado pela leitura e

See ya!

2 comentários:

rafael beltrame disse...

muito bacana! eu gosto de textos simples como os da 1ed (para monstros), apesar de tb gostar do formato da 2ed, de onde vc pode tirar uma aventura apenas lendo a descrição de ecologia, por exemplo.

contudo, discordo q o apice do naturalismo esta no ad&d. em varios monstros, ja podemos ver a intenção de background, em especial, nos extra planares :)

guithegood disse...

Então aparentemente eu sou um adepto desse naturalismo sem notar. Percebi isso quando preparei uma dungeon que envolvia uma longa viagem até uma pequena escola de magia que tinha sido invadida e seus monstros - presos ali para fins de estudo - haviam sido libertos pelos invasores. Quanto mais o tempo passava, mais o espaço se tornava um ecossistema seletivo, mas a quantidade de informações sobre as criaturas me permitiu preparar uma situação coesa de seleção natural, resultando na sobrevivência de alguns monstros inesperados. É algo que geralmente passa desapercebido pelos jogadores (embora eu tenha sutilmente introduzido a idéia), mas foi bem satisfatório fazê-lo.

A questão é que a dungeon não é estática. Se o jogador entra em uma sala pra enfrentar digamos ratos gigantes em uma sala, para logo em seguida enfrentar goblins na sala posterior, isso sempre me soa estranho. Por que os ratos e os goblins não se enfrentaram? Seja por espaço ou alimentação?